quarta-feira, 28 de setembro de 2011

NOTICIA: É ou não é rio?

É ou não é rio?

Geólogos divulgam carta aberta em que criticam e colocam em dúvida as conclusões de recente pesquisa brasileira que aponta a descoberta de um rio subterrâneo debaixo do Amazonas.

Por: Sofia Moutinho
Pesquisadores brasileiros divulgam indícios da existência de um ‘rio’ 4 mil metros abaixo do rio Amazonas, mas geólogos da Febrageo criticam a pesquisa e a terminologia escolhida para o fluxo de água. (foto: Flickr/ Spuneker – CC BY 2.0)

"Descoberto rio subterrâneo de 6 mil km debaixo do rio Amazonas”. Ao se deparar com essa notícia, muita gente logo imaginou um caudaloso fluxo de água correndo por um túnel abaixo da terra. No entanto, o suposto rio, anunciado por pesquisadores brasileiros do Observatório Nacional, nada tem a ver com essa imagem.

Não é à toa que o estudo tem causado rebuliço no meio científico, levando um grupo de pesquisadores da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo) a elaborar uma carta aberta à sociedade criticando as conclusões do trabalho e o uso do termo ‘rio’.

O ‘rio’ subterrâneo, batizado de Hamza em homenagem a um dos seus descobridores, o geofísico Valiya Hamza, foi anunciado no final de agosto no 12º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, chamando a atenção da mídia internacional e conquistando até um verbete na Wikipédia

Hamza e sua orientanda de doutorado Elizabeth Pimentel, da Universidade Federal do Amazonas, analisaram dados de temperatura da água e das rochas de 241 poços de petróleo desativados perfurados pela Petrobrás na região amazônica e encontraram indícios de que existe um fluxo de água subterrâneo, de 6 mil km de extensão e até 400 km de largura, que corre por entre os sedimentos rochosos a 4 mil metros de profundidade.

Segundo os pesquisadores, o ‘rio’, formado pela infiltração da água da chuva e de outros rios, teria início no Acre e seguiria do oeste para o leste, passando pelas bacias dos rios Solimões, Marajó e Amazonas, até alcançar o mar.
No entanto, geólogos dizem que, mesmo que exista esse fluxo de água, ele não poderia ser chamado de rio, pois se move por dentro de uma camada permeável de rochas, como o calcário e o arenito.

De acordo com o geólogo José Luiz Galvão de Mendonça do Centro Universitário de Araraquara (Uniara) – autor do artigo Rios subterrâneos: mito ou realidade’ publicado na revista CH –, o fluxo de água descrito se assemelha mais a uma esponja molhada do que a um rio.

“Tratar essa água como um rio está errado”, afirma. “Um rio subterrâneo é um conceito popular; na verdade, o que foi descoberto foi um aquífero, rochas porosas que retêm água.”
Hamza conta que foi difícil definir a descoberta, mas que não seria possível chamá-la de aquífero porque o fluxo de água encontrado não fica reservado, mas segue curso e deságua do mar.
“Encontramos movimento de água que corre em área muito extensa e achamos que o melhor seria chamar de rio”, diz.
Esquema rio Hamza
Esquema divulgado pelos autores da pesquisa mostra o ‘rio subterrâneo’ debaixo do Amazonas. (fonte: Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional)

Passos de formiga

O estudo de Hamza indica que o fluxo de água subterrâneo é lento, com uma velocidade de 10 a 100 metros por ano, bem menor que a do rio Amazonas, que avança cerca de dois metros por segundo. Mas, de acordo com o pesquisador, isso não é motivo para não chamá-lo de rio.
“Não há definição na ciência para a velocidade mínima ou máxima de um rio”, diz. “Inclusive, no Brasil, existem rios com velocidade inferior a que encontramos, como o Rio do Sono, no Tocantins. 

Além disso, o nosso rio tem um fluxo de 3.900 m3/s, muito grande se comparado ao do Rio São Francisco, por exemplo.”
Na avaliação do pesquisador, o uso do termo rio é adequado, pois, além do rio a que estamos acostumados, que corre na superfície, existem outros dois tipos conhecidos: o atmosférico e o subterrâneo. 

Celso Dal Ré Carneiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos geólogos que assinam a carta aberta de crítica ao estudo, confronta a análise de Hamza. Ele afirma que ‘rio atmosférico’ não é um termo científico e que o conceito de ‘rio subterrâneo’ é usado apenas para as situações em que águas fluem dentro de cavernas.

“Chamar de rio o fluxo de água indicado no estudo é o mesmo que dizer que uma caneta que tem forma de lápis é um lápis e não uma caneta. Esse estudo fere conceitos arraigados nas geociências.”
Carneiro e os demais geólogos que assinam a carta destacam que fluxos de água lentos como o indicado por Hamza “são comuns na região do rio Amazonas e estudados há tempos pelos geólogos brasileiros”.

Conclusões precipitadas

De acordo com Hamza, uma das principais implicações da descoberta dorio subterrâneo’ é a explicação que ele traz para a presença de bolsões de baixa salinidade na zona oceânica em torno da foz do Rio Amazonas

Segundo o pesquisador, a baixa salinidade dessa região, que resulta em uma fauna única, não poderia ser causada somente pelas águas doces do Amazonas.
Essa tese é confrontada pelos geólogos da Febrageo. Segundo eles, a descarga do Amazonas é sim suficiente para formar os bolsões de água doce no Atlântico e não há como afirmar que o fluxo de água descoberto chega ao oceano e nem mesmo se ele é de fato doce.

“É muita suposição dizer que esse fluxo deságua no mar, bem como especular sobre sua velocidade, vazão e dimensão”, defende Carneiro. “O trabalho como um todo não é absurdo, mas as suas conclusões são precipitadas, baseadas apenas em dados indiretos de temperaturas que não foram avaliados por pesquisadores independentes.”
Texto de Sofia Moutinho - Ciência Hoje On-line
Nota da autora: 
Este texto foi atualizado para incluir a seguinte alteração:
Como apontaram alguns leitores, Valiya Hamza não é geólogo, como havíamos divulgado anteriormente. De acordo com o seu currículo Lattes, Hamza possui graduação em física, mestrado em física aplicada e doutorado em geofísica. Com base nessas informações, fizemos as devidas alterações. (26/9/2011).
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Comentario:
Nas ultimas semanas os Geólogos na Amazônia tem sido "inundados" com indagações sobre esse tema, vi até um Deputado se pronunciar na midia dizendo que isso era produto de Parintins (cidade natal da pesquisadora).
Ao ler pela primeira vez a divulgação sobre esse "rio" logo veio à mente a ideia de um aquifero (seria o Alter do Chão?), e não vejo no texto do Rio Hamza comprovação de que se trata de algo diferente, de fato entendemos como "rio subterrâneo" fluxos de agua existentes em cavernas.

Até que os autores provem estarem corretos, fico com o parecer da FEBRAGEO.

Saudações Geológicas
Prof. Elias Santos Junior

3 comentários:

geocrusoe disse...

Claro que estamos perante a divulgação da existência de um grande aquífero no norte do Brasil, os termos utilizados foram mera propaganda dos autores, que sobrepuseram à frieza do ciência ao calor da linguagem publicitária... talvez para cativar apoios financeiros para o projeto.

Professor Elias Santos Junior disse...

Será que foi apenas mera propaganda Geocrusoe? ou entraram em uma seara que não era deles? Recordo-me de um artigo publicado na Colombia dizendo que o Rio Amazonas corria em sentido contrario antes do Cenozoico, isso ja havia sido amplamente divulgado antes, com bases solidas de pesquisa, porem ganhou notoriedade quando uma pesquisadora colombiana veio fazer mestrado na UFAM e ao voltar ao seu País relatou o trabalho de outro autor e ganhou a fama no lugar dele.
Prefiro pensar que no caso do Rio Ramza o qe houve foi um erro conceitual e não oportunismo cientifico.

Abraços ao colega Geólogo perdido no meio do Oceano Atlantico, continue o belo trabalho que desenvolve no seu blog.

Geólogo Gilmar Honorato disse...

esse rio tá mais para um aquífero, acho que os dados são insuficiente para essa conclusão. Meu colega Carlos Aguiar da CPRM de Manaus já trabalhou com esses dados, e já havia notado há tempos esse fluxo subterrâneo. Mas para chamar de rio, sei não, muito kaô...

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